sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

POEMAS

“Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!

Não levo da existência uma saudade!

E tanta vida que meu peito enchia

Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias

À sina doida de um amor sem fruto,

E minh’alma na treva agora dorme

Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus? Morra comigo

A estrela de meus cândidos amores,

Já não vejo no meu peito morto

Um punhado sequer de murchas flores!”


“Adeus, meus sonhos!” - Álvares de Azevedo

“Deixa que o olhar do mundo enfim devasse

Teu grande amor que é teu maior segredo!

Que terias perdido, se, mais cedo,

Todo o afeto que sentes se mostrasse?
Basta de enganos! Mostra-me sem medo

Aos homens, afrontando-os face a face:

Quero que os homens todos, quando eu passe,

Invejosos, apontem-me com o dedo.
Olha: não posso mais! Ando tão cheio

Deste amor, que minh’alma se consome

De te exaltar aos olhos do universo…
Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:

E, fatigado de calar teu nome,

Quase o revelo no final de um verso”.


“Deixa que o olhar do mundo enfim devasse” – Olavo Bilac
“Este querer-te bem sem me quereres,

Este sofrer por ti constantemente,

Andar atrás de ti sem tu me veres

Faria piedade a toda a gente.
Mesmo a beijar-me a tua boca mente…

Quantos sangrentos beijos de mulheres

Pousa na minha a tua boca ardente,

E quanto engano nos seus vãos dizeres!…
Mas que me importa a mim que me não queiras,

Se esta pena, esta dor, estas canseiras,

Este mísero pungir, árduo e profundo,
Do teu frio desamor, dos teus desdéns,

É, na vida, o mais alto dos meus bens?

É tudo quanto eu tenho neste mundo?”


“A Mensageira das Violetas” – Florbela Espanca
“Foste o beijo melhor da minha vida,

ou talvez o pior… Glória e tormento,

contigo à luz subi do firmamento,

contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo não te olvida:

queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,

e do teu gosto amargo me alimento,

e rolo-te na boca malferida.
Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,

batismo e extrema-unção, naquele instante

por que, feliz, eu não morri contigo?
Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,

beijo divino! e anseio delirante,

na perpétua saudade de um minuto…”


“Um beijo” – Olavo Bilac
“Ao coração que sofre, separado

Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,

Não basta o afeto simples e sagrado

Com que das desventuras me protejo.
Não me basta saber que sou amado,

Nem só desejo o teu amor: desejo

Ter nos braços teu corpo delicado,

Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem

Não me envergonham: pois maior baixeza

Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem

Ser de homem sempre e, na maior pureza,

Ficar na terra e humanamente amar.”
“Ao coração que sofre” – Olavo Bilac

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